Meus Queridos Loucos,
dedico este texto para todos aqueles que são guiados pela Loucura.
Deixo um abraço especial para Erasmo de Rotterdam. Escreveu um dos livros que mais gosto: ”Elogio da Loucura”.
Desejo um bom passeio de mãos dadas com a senhorita Insanidade que o aguarda texto abaixo.

"Uma voz familiar que ecoava no quarto branco. Levantei."
Por Thaísa Gazelli
Paredes brancas refletem pensamentos silenciosos que vagam pelo vácuo.
Paredes brancas fecham corpos deitados ao relento.
Paredes brancas ouvem gritos de corações paranóicos.
Paredes brancas.
Quatro, para ser mais preciso.
Quatro paredes brancas precavidas com seu estofamento.
Quatro paredes brancas sem janelas da alma.
Quatro paredes brancas devidamente isoladas.
Isoladas do mundo da sobriedade.
Isoladas do mundo moralmente correto.
Isoladas do mundo da verdade.
Isolados do mundo erroneamente amedrontado.
Amedrontados por serem humanos.
Amedrontados por serem devaneios.
Amedrontados por serem pecadores.
Amedrontados por serem pensadores.
Pensadores. Pensam. Penso. Pensam por mim.
Pensadores. Sofrem. Sofro. Sofrem por mim.
Pensadores. Entendem. Entendo. Entendem por mim.
Pensadores. Calam. Calo. Calam por mim.
Silêncio coercitivo. Silenciado por mãos familiares.
Silêncio coercitivo. Silenciado por sociedades nada anarquistas.
Silêncio coercitivo. Silenciado por sensatos impulsos.
Silêncio coercitivo. Silenciado por escassez de palavras.
Palavras que não salvam mentes angustiadas.
Palavras que se transformaram em longos monólogos.
Palavras que não possuem intenção para ouvidos alheios.
Palavras que se debruçaram nas bocas desatentas para assistir ao fracasso.
Fracasso esse que provei diversas vezes na vida.
Uma.
Duas.
Três
Quatro.
Quatro incontáveis vezes que deixei minha mente possuir minha carne carcomida pelo cansaço de lutar.
Lutar com a visão dos gigantes.
Lutar com a força dos valentes.
Lutar com o fedor da humanidade.
Lutar com a voz de todos.
Todos. Número de pessoas que decidiram construir um jardim de rosas negras no fundo de seus lares, doces lares.
Doces lares que escondem a podridão humana.
Doces lares que vivem embriagados pelo néctar da perfeição.
Doces lares que dizem a verdade apenas quando necessário.
Doces lares que amargam inalcançável esperança.
Esperança. Condição para continuarmos em uma caminhada completamente sem sentido. Prova viva do anseio humano por se apegar a algo imaginário.
Imaginário, guia a normalidade.
Imaginário, afasta a realidade.
Imaginário, guia a loucura.
Imaginário, aproxima a insanidade.
Insanidade daqueles que retornarão ao pó. E nada mais são. Apenas pó. Insanidade daquele que continua deitado no quarto branco.
Branco é o teto que admira.
Brancos são seus pensamentos.
Branco é o raio de luz que invade a fresta da porta.
Brancos são os quatro muros que fecham corpos deitados ao relento.
Ao relento, deixei meu conselheiro. Por vergonha o abandonei. Fingi não precisar de sua companhia. Olhei para o outro lado.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Quatro foram os segundos que contei. Ao voltar meu rosto para o ângulo anterior, notei que ele ainda estava ali. Como um bom amigo. Esperava em sua quietude um sorriso de boas-vindas.
Vinda de pensamentos messiânicos.
Vinda de roteiros pré-estabelecidos.
Vinda de promessas mentirosas.
Vinda da sombra da norma.
Sombra da norma era onde vivia. Não apenas eu. Mas todos que dirigiam os carros. O banco de passageiro era para os que se esforçavam por coisas que nunca foram importantes.
Importantes para alguém.
Importantes para outros.
Importantes para nomear.
Importantes para distanciar.
Distanciar o desconhecido. Era isso que a sobriedade tendia a fazer com seus temores. Nem de bondade pode viver o homem.
Homem feito por mãos familiares.
Homem feito de costelas.
Homem feito de elogios.
Homem feito por cansativas tentativas.
Cansativas tentativas. Foi isso que presenciei enquanto estava deitado contando unhas quebradas em minha mão esquerda.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Quatro era os arranhões que acordei naquela manhã. Eles já estavam ali quando me dei conta. Ardiam.
Ardiam as bigornas que não colaboravam com a gravidade.
Ardiam as chamas que marcavam minha pele de gado.
Ardiam os lábios contraídos.
Ardiam as lágrimas que queriam ser livres.
Livres. Sonhamos em ser. Apenas continuamos na busca incessante por algo que nem ao menos conseguimos uma definição. Não precisávamos de uma definição. Porque juntos ou separados. Éramos simplesmente números.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Quatro era a significação necessária do enredamento vivo.
Eu. Em minha complexidade de ser.
Minha carne. Em minha podridão de ser.
Meu espírito. Em meu desconhecido de ser.
Minha alma. Em minha confusão de ser.
Sê-lo de outra forma. Era isso que eu era. Igual. Igualmente louco aos cativos da mediocridade que esperam em seus quartos brancos.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Quatro vezes ouvi chamar. Chamava-me pelo nome. Uma voz familiar que ecoava no quarto branco. Levantei.
Levantei do sepulcro.
Levantei úmido de suor.
Levantei para seguir sem caminho.
Levantei em quatro longos segundos.
Segundos que subseqüente encontraram a porta branca. Mãos familiares giraram a maçaneta. Era um mesmo branco dia.